Patrícia Alves

Colaboradora da Escola Superior

“O que me motiva são os sonhos coletivos, os projetos que ainda vão nascer, ver a justiça sendo, de fato, promovida e reconhecer a mim mesma como parte dessas construções coletivas”

“Me orgulho muito. Assim… porque, para mim, estar aqui é como um troféu.” A frase carrega o simbolismo de quem se sente vitoriosa. De quem celebra a própria trajetória e reconhece que a luta vale a pena. O nome é Patrícia Alves ou Patrícia Dawson, para os mais próximos. Mulher negra, Patrícia fez história ao se tornar a primeira travesti a integrar o quadro de colaboradores da Defensoria Pública do Ceará, por meio do projeto institucional Visibilizar, iniciativa que formalizou diretrizes voltadas ao atendimento, à inclusão laboral e à permanência de travestis, pessoas transexuais e não bináries na instituição.

O vínculo com a Defensoria Pública, no entanto, começou antes mesmo da contratação. Em 2019, ainda como assistida, Patrícia buscou a instituição para retificar nome e gênero na certidão de nascimento, assegurando o direito de ser oficialmente reconhecida como se sente.

Vinda dos palcos, do teatro e do cinema, ela encontrou na Defensoria uma nova oportunidade profissional. Há quase quatro anos, aceitou o desafio e passou a trilhar um caminho marcado por aprendizado, amadurecimento e conquistas. Sua primeira atuação foi no Núcleo de Defesa da Pessoa Idosa, onde realizava triagem, orientação documental e agendamentos. Uma experiência que despertou reflexões profundas sobre o valor da vida e a importância do respeito às pessoas idosas.
Atualmente, integra a equipe da Escola Superior da Defensoria Pública, vivenciando uma rotina voltada às demandas administrativas.

Nesse novo espaço, conta que vem ampliando habilidades e explorando diferentes conhecimentos, inclusive como cerimonialista. Ao lado da equipe, acompanha projetos institucionais, entre eles o Defensores Populares, iniciativa que a aproxima diretamente de mulheres, em sua maioria periféricas, negras, mães solo, travestis e idosas. Uma trajetória que une resistência, orgulho e transformação.

1 – Defensoria: Como foi seu primeiro dia na Defensoria? O que ficou gravado na memória?

Patrícia: Foi tudo muito diferente do que eu já tinha vivido. Apesar de já ter trabalhado como CLT, eu nunca tinha tido contato com a área do Direito. Não entendia nada, não tinha nenhuma noção. Isso se somou aos medos e às incertezas, porque eu sabia que um corpo como o meu, ocupando esse espaço, poderia gerar reações diversas, opiniões e comportamentos distintos.

Mas fui surpreendida. Desde o primeiro dia, me senti muito querida e acolhida. É assim que sigo até hoje: firme, com um propósito claro na mente e com planos para não apenas sobreviver, mas viver o novo. O que ficou gravado foi justamente essa confirmação de que eu posso estar em qualquer espaço. E que aqui seria uma grande oportunidade de me desafiar e aprender.

2 – Defensoria: Em que momento você sentiu que o seu trabalho fazia diferença na vida de alguém?

Patrícia: Aqui, a gente acaba criando laços com as pessoas. E eu acredito muito que, se não há vínculo, é preciso se perguntar o que estamos fazendo ali. Afinal, aqui é um espaço de atendimento ao público, que exige troca, presença e humanidade. Inclusive, alguns desses laços permanecem até hoje. E é um barato, porque eles criam um carinho com a gente. Muitas vezes, eles nos tratam como filha, como neta. Foi nesse contato direto que eu aprendi, na prática, a importância da escuta. Estar na linha de frente, diante de pessoas que, assim como eu, vivem situações de vulnerabilidade, me ensinou que ouvir e acolher também são formas de garantir direitos. Mostrar caminhos, abrir possibilidades e atuar com compromisso me fez entender, de forma muito concreta, a diferença que o meu trabalho pode fazer na vida de alguém.

3 – Defensoria: O que te motiva a seguir contribuindo com essa instituição?

Patrícia: Eu também venho desse lugar das minorias. Então, estar aqui, ocupando esse espaço e podendo ajudar o meu próximo, é a confirmação de que estou onde preciso estar. Para mim, isso é sinônimo de servir. O que me motiva são os sonhos coletivos, os projetos que ainda vão nascer, ver a justiça sendo, de fato, promovida e reconhecer a mim mesma como parte dessas construções coletivas.

Estou aqui e espero que sejam mais quatro anos, depois mais dez. O tempo que precisar ser. Que seja um ciclo bom e saudável na minha vida e que, enquanto eu estiver aqui, eu possa sempre dar o meu melhor. Que eu continue me colocando à disposição para fazer o trabalho, fortalecendo o que é a essência da Defensoria: ajudar o outro, compreender as realidades das pessoas vulnerabilizadas e garantir a assistência a quem mais precisa.